Poucos e Tudo

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Joãozinho

Joãozinho sempre faz das suas.
Moleque capeta!
A vó sempre diz: - Mais capeta que o próprio capeta!
Correr, xingar, quebrar, bater, brigar, brincar, chacoalhar, esconder, traquinar.
Seus dias eram difíceis, trabalhava pra chuchu, não só com o corpo, mas também com a mente, maquinando as travessuras que ia fazer. Dona Cida que o diga, não dá um segundo para ela na escola; pula nas carteiras, joga lápis, giz apontador, ninguém o segura.
O pai ficava bravo.
A mãe nem se fala.
Mas e daí, o negocio é brincar.
- Meu filho! O que é isto?
- Nada não mama! Apenas alegria.
- Alegria! Você está todo sujo. Não dá para entrar em casa!
- Mamãe é sábado. Dia da bagunça.
- Com você bagunça são todos os dias!
- Brinquei na lama, lá no campinho.
- Isso eu estou vendo!
- Mãe foi muito legal!
- Ainda bem que moramos em casa, se fosse apartamento, ia dar o maior banzé.
- Mãe deixa de ser chata!
- Vou lhe dar umas palmadas.
- Não pode mãe, é proibido!
- Ah, isso você sabe!
- Sei de muitas coisas!
- Vá para o quintal de trás. Vou lhe dar um banho de bacia.
- Banho não! Quero brincar mais!
- Depois você brincar, mas agora...
Às vezes parava, percebia que dava trabalho. Ficava no quarto, pensando na cama, seu canto secreto: - tô cansado de chateação. Quero ser livre, independente. Quero viver minha vida, sem ouvir bronca, ficar de castigo, receber ordens, fazer a cama, estudar, fazer lição, dormir cedo, que chatice. Sem ser torturado pelas regras dos mais velhos.
Não quero viver com os outros, são muito chatos. Eles não procuram me entender. Gosto de brincar. Não tenho destino. Não quero ser nada quando crescer, alias não quero crescer. Quero ficar como sou pelo resto da vida. Sou como o vento. Quero apenas aproveita a brisa, criar asas e voar por este céu imenso. Conhecer muitos lugares. Ver coisas que nunca vi. Não ficar indo a escola e fazer aquelas coisas inúteis que a professora pede. Quero sentir o cheiro dos bichos e viver como eles. Ser um garoto selvagem...
- Papai, quero conversar com você.
- Tá bom, sou todo ouvido.
- Você vai continuar brincando com a Valentina?
- Ora ela também é minha filha!
- Papai é só um cachorro! Eu sou seu filho! Sou humano! Lembra?
- Fala logo João, você já me irritou muito por hoje.
- Tá bom, tá bom, já entendi, não tem papo.
- E precisa mais, você foi suspenso na escola por causa de bagunça, suas notas estão horríveis, briga na rua quase todo o dia, não cuida dos cachorros. E ainda quer conversar? O que mais tem a falar?
- Estou com remorso, hoje não vou conseguir dormir direito, posso dormir com vocês?
- De jeito nenhum! Agora vai se fazer de coitadinho.
- Sou um incompreendido!
- Você ouviu isso Carmem?
- Vem ouvir seu filho, o incompreendido.
- Onde está a mamãe?
- Se arrumando para dormir.
- Ela ainda ta zangada comigo?
- O que você acha?
- E já ouvi tudo, você briga, faz tudo errado, e vem dar uma de menininho arrependido, não pode por qualquer coisinha vir dormir aqui! Já está crescido, tem de enfrentar seus medos e seus problemas.
- Ah mãe, de vez em quando é bom ser o bebezinho gostosinho!
- Vem cá meu gordinho! Senta aqui com a mamãe. Eu sei que é difícil ver os erros que cometemos, mas as suas atitudes não estão sendo muito legais. É necessário que você entenda que em casa cada um tem suas obrigações e que é importante cumpri-las. Não quero que você seja um menino tonto, que não tenha personalidade, mas não precisa exagerar, eu e seu pai queremos que se aplique nos estudos, preste atenção nas aulas, respeite os professores e que faça suas tarefas aqui em casa, como cuidar dos cachorros. Isto é muito importante para nos.
- Sei mãe, mas eu ainda sou o gostoso de vocês?
- Hum, não sabemos, o que você anda fazendo não é muito bonito!
- Mas mãe, eu sou apenas um menininho, às vezes faço uma baguncinha!
- Você é menininho quando lhe convém! Quando não, fala que é mocinho!
- Mãe você é fogo! Não me dá uma chance!
- Lhe dou todas as chances que precisar seu pai também, mas queremos que a partir de amanhã você comece a melhorar. Combinado?
- Combinado, mãe!
- Então me de mil beijos e vá dormir.
- Boa noite! Pai me leva pro quarto?
- Que fazer! Que fazer! Vamos meu filho.
No dia seguinte...

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