Vem nascendo com tudo
E vem de qualquer jeito
De qualquer lado
De ponta cabeça
Mergulhar para fora
E não há quem contenha seu grito
Que vem na hora exata
Na hora da vida
Se encolhe inteirinho
E chora, chora,
E você vê que é sincero
Ainda que engane, sincero
(Hora da Vida – Luiz Tati)
A Despedida
Durante a noite, Dudu não teve pesadelos com o homem enrugado e a mulher descabelada. Sonhou com o quarto azul, estava brincando com os bichos de pelúcia, com os carrinhos. Pulando em sua cama.
De manhã, ainda estava fraquinho, mas estava mais animado e a enfermeira o deixou ir para o jardim, tomar sol. “Só um pouquinho”.
- Você precisa tomar sol, está muito pálido. Mas não abuse! Volte logo.
Dudu correu um pouco pelo jardim, mas logo se cansou e sentou na grama com o Xande. Eles ainda estavam conversando, até que um dos meninos mais velhos veio com a noticia:
- Pato foi chamado no escritório da Diretoria, a Juíza também está lá.
- Xi! Será que o Pato aprontou mais uma, Dudu?
Deve ter aprontado Xande! Ele vive fazendo das suas, só espero que não seja muito grave, vamos ver no que dá!
Foram todos para perto do escritório da Diretoria, para saber o que o Pato tinha aprontado.
Tanto os mais velhos quanto os mais novos estavam preocupados. O Pato era muito bagunceiro, mas também era amigo de todo mundo. Era ele quem sempre incentivava quem sempre tinha uma palavra de amizade e carinho nas horas difíceis de cada um. Pato também defendia os mais novos,quando via um menino mais velho batendo, sem nem mesmo querer saber porquê. Ele era pau prá toda obra e agora estava lá recebendo alguma bronca ou castigo, talvez até merecido. Mas era o Pato, então era injusto.
Esperaram um tempão. Você já reparou que quando a gente fica nervoso parece que o tempo não passa?
Finalmente o Pato saiu com a Dra. Eleni atrás e para surpresa de todos, não estava chateado nem triste! Estava alegre, muito contente.
- Pessoal vou sair daqui! Vou ficar com uma família. Depois ser adotado! Eu acreditei! Eu consegui!
Naquela mesma tarde a nova família do Pato ia buscá-lo.
Mais tarde ele estava no seu dormitório se aprontando, rodeado por alguns amigos, contando a novidade, dando todos os detalhes, quando o Dudu parou na porta, meio encabulado.
- Não estou incomodando, Pato?
- Oi Dudu, vamos dar uma volta.
E foram andando pelo corredor até chegarem ao jardim onde se sentaram na grama. Pato colocou as mãos no ombro de Dudu. Eram realmente irmãos, não importavam as diferenças, eles eram irmãos; irmãos do abandono, irmãos da intolerância, irmãos da infelicidade, mas também irmãos de travessuras, irmãos de sonhos, irmãos de felicidade. Como irmãos, eram parceiros. Aquele momento era deles, e ninguém podia fazer nada contra.
- Parabéns, Pato! Agora você tem uma família.
- Dudu, continue pedindo. Como te falei você vai ser o próximo!
- Que o “Papai do Céu” te ouça!
- Ele e o “Menino Jesus”. Não perca a esperança!
- Não vou perder. Eu acredito!
Dudu, começou a chorar. Pato lhe deu um beijo e um grande abraço.
Naquela tarde, pela janela do dormitório Dudu viu a família do Pato chegando. Vinham num táxi, que parou no estacionamento do abrigo, eles saíram e caminharam para a sala da direção. Pato já estava lá, esperando.
- Será que o Pato vai ter um quarto azul, Xande?
- O que Du?
- Deixa pra lá! Ele te deixou um abraço.
Da janela os dois viram o Pato na companhia dos novos pais entrando no carro e indo embora.
Os dois estenderam as mãoszinhas e acenaram.
- Tchau Pato!
Depois da partida do Pato, tudo voltou ao normal. O viãozinho corria pelo jardim com uma agitação danada.
“Brum, brum, brum, brum, brum.” Olha ‘vião vai aterrorizar na casa do meu papai, da minha mamãe, perto do Pato, talvez na mesma casa. É o mesmo Menino Jesus, pode ser o mesmo papai e a mesma mamãe. “Brum, brum, brum, brum, brum”.
O Xande sentadinho na grama só observando.
- Esse Dudu, tá louquinho, louquinho!
Antes de dormir, toda noite era a mesma conversa com o Menino Jesus.
E na manhã seguinte tudo de novo:
“Brum, brum, brum, brum, brum”. Olha o ‘vião danado, percorre um lugarzão. Voa por entre as nuvens, vai para qualquer lugar...
- Vem Xande, vem no vião!
Assim o tempo passava, sem grandes acontecimentos...