- Vovô aqui não tem peixe não!
- Calado, senão eles não vêm mesmo.
- Mas você mesmo disse que antes tinha muito mais peixe.
- É antes mesmo de seu pai nascer, quando morávamos nas margens do rio vivíamos da pesca. Tinha peixe de montão, não é como hoje.
- Não acredito, acho que são só historias.
- Que isso menino, respeita teu avô, acha que sou mentiroso?
- Não vô, é que é duro de acreditar!
- Chiquinho, antes de você nascer, antes de construírem a Usina, vivíamos muito bem.
- Verdade vô? - Verdade, o Rio, o querido Velho Chico, de onde vem seu nome, nos fornecia peixe fresco em abundancia, água para nosso dia a dia e para irrigar as plantações.
- Vô, se era tão bom por que se mudaram pra Serra?
- Fomos obrigados, homens do governo, resolveram construir a Usina Hidrelétrica, sei lá o que! E a represa inundando nossas vilas.
- E vocês não fizeram nada?
- O que podíamos fazer? Eles chegaram com suas idéias, com suas palavras difíceis, falaram que nossa vida ia melhorar que estavam trazendo a civilização, o progresso, que o Brasil ia ser uma grande potencia mundial, e para isso era necessário desenvolver todas as regiões brasileiras, levando-as ao “progresso”.
- Puxa!
- E que devíamos nos sacrificar um pouco, mas que com o passar do tempo tudo iria melhorar.
- Puxa!
- Progresso. Ah progresso! Se soubéssemos. Ele nunca veio e ficamos longe da água.
- O que vovô?
- É Chiquinho ficamos longe da água. Éramos beraderos.- O que é beradero vovô?
- Chiquinho, beradero, é quem tira do rio seu sustento, ficávamos perto do rio. O rio nos avisava das estações do ano, nos alimentava e era nosso transporte. De repente ficamos longe da água.
- E aí vovô?
- Fomos para Serra, não gostamos, pra começar a água era saloba, suja, cheia de barro, água ruim, matou muita criancinha, muita gente adulta, foi uma mortandade danada. Tínhamos nossa lavoura, mas não conseguimos cultivá-la.
- Por que vovô?
- Por que estamos longe do rio. Quase uns 9 quilômetros, existiam os canais de irri

gação, mas eles secavam logo e ficavam barreados. E a lavoura não ia pra frente, não crescia, não produzia.
- Nossa vovô!
- Ah que saudades dos nossos antigos povoados de Casa Nova, Centro Sé, Pilão Arcado, Sobradinho e Remanso! Todos cobertos pelas águas do rio.
- Rio ruim, inundou nossa morada!
- Não Chiquinho, o rio não!
- Não vô!
- Não, o rio segue seu curso, como sempre fez. Ruim é o homem do governo, o douto, que não conhece a região, seu povo e vem pra cá e quer mudar tudo.
- Chiquinho, só quero ajudar.
-Quem está aí?
- Sou eu Chiquinho, o velho Chico.
- Deus cruzes, agora rio fala!
- Não muito seu Túlio, mas não pude deixar de ouvir a conversa e resolvi participar.
- Puxa velho Chico, é uma honra conversar com você!
- Vovô não fala com ele, não! Será que não alguma feitiçaria de algum douto?
- Deixa disso Chiquinho o rio é nosso amigo.
- É Chiquinho, estou muito solitário. Desde que as pessoas foram embora fiquei muito sozinho.
- Velho Chico onde estão os peixes?
- Sabe Chiquinho, quando se constrói uma usina Hidrelétrica altera-se o meio – ambiente, mudando a forma da região, poluindo o ar que fica com uma poeirada só, através da movimentação de terras feitas pelas máquinas de terraplanagem, pela a inundação de grandes áreas,, provocados pelas mudanças sem os estudos adequados.
- Puxa!
- É Chiquinho também os peixes sofrem, pois com a criação da represa de Sobradinho e a inundação das terras, a temperatura das águas se reduz, influenciando na reprodução e no desenvolvimento de algumas espécies.
- Puxa é por isso que não tem peixe?
- É Chiquinho!
- E nos lá na vila passando fome.
-É revoltante seu Túlio. E para eu o rio, ninguém perguntou nada! A função da natureza é de ajudar as pessoas que precisam dela para viver.
- Boa, velho Chico, falou tudo!
- Sabe Chiquinho, o velho Chico sempre foi nosso amigo. E nos sempre procuramos usá-lo com sabedoria. Pois sabíamos que precisávamos dele. Antes da represa existir, ele banhava nossos vilarejos; ele participava das nossas festas, invés de andar a pé, como hoje fizemos, usávamos suas águas mansas, para nos visitar.
- Era assim vovô?
-Era, Chico.
- Sabe Chiquinho, quando tiraram as pessoas do meu convívio senti muito, perdi o Zé Sabichão que conhecia todo mundo e contava histórias, o Mane da viola que me cantava tão bonito em verso e prosa, o Padre Pedro que usava e benzia minha água limpinha, dona Sinhá que colhia seus pés de couve e tomate tão suculentos e doces, enfim perdi minha gente.
- E nos perdemos você, ficamos longe.
- É seu Túlio, tudo em nome do progresso.
- Progresso, progresso é destruição?
- Não seu Túlio o progresso é importante, é fundamental melhorar a vida das pessoas a população do planeta aumenta e é necessário acompanhar seu desenvolvimento, mas não em nome da destruição descabida...
- Como Velho Chico?
- Explico melhor seu Túlio: é preciso melhorar a vida das pessoas, mas para isso e necessário fazer um planejamento responsável, respeitando o modo de vida de cada um e a natureza para não causar nenhum desastre maior ao planeta.
- E isso pode ser feito?
- Claro seu Túlio, fazendo um estudo organizado e aprendendo com as populações locais, não se pode desprezá-las.
- Como nos fomos!
- Isso! Vocês ficaram sem eira nem beira na Serra. As novas casas não possuíam frente, As roças, as ruas não sobem, nem descem não se aproximam da beira...
- Ficamos sem nosso São Francisco...
- Não chora vô!
- Nos primeiros anos plantemos cebola, deu muito. Depois a terra colou, veio um barro esquisito, a água não entrava na terra, não molhava, dexemo de plantar não adiantava.
- Não chora, não vô!
- Pra muita gente, restou ir embora! Nos num fomos. Eu não quis. Depois sua avó adoeceu e num deu.
- Chora não, vô!

- Doidice maior nunca vi, morar longe da roça, nunca quis.
- Não chora, vô!
- Agrovila, não presta não.
- É seu Túlio e foi ficando cada vez pior!
- E como, velho Chico!
- As enchentes que antes eram recebidas com alegria, anunciadoras de fertilidade, hoje são imprevisíveis, vistas como calamidades.
- Seu Túlio a construção da represa de Sobradinho provocou desarticulações no ecossistema da região, desarticulando o equilíbrio de todo vale.
- É velho Chico, a nos restou pedir a Deus por dias melhores.
- Tudo por causa de alguns doutores, que resolveram modificar nossa vida em nome do progresso.
- Ah, Velho Chico, um dia crio coragem querendo os douto do governo ou não, pego a família e volto pra vida beradeira e trago todo mundo que restou comigo.
- É um caminho seu Túlio.
- Bom Velho Chico, ta na hora, a mãe desse menino deve estar preocupada temos de ir embora.
- Eu também estou cansado, essa conversa me emocionou muito...
- Tchau velho Chico!
- Tchau Chiquinho, seu Túlio, voltem sempre...